Estava eu quieto aqui no meu canto exercendo a minha nova atividade de procurador do Estado, ou seja, procurando emprego nos volumosos cadernos de classificados do Estadão, quando o telefone toca. É o meu amigo e antigo editor Roberto Sassi, ligando para manifestar a sua solidariedade pela minha recente excomunhão e colocar as páginas deste jornal a minha disposição. Tinha jurado para mim mesmo que três coisas eu não faria mais na minha vida: me apaixonar, escrever em jornais locais e trabalhar em campanha do Wanderley Maduro, mas se a prefeita que é a prefeita falou que tinha coragem para mudar e até agora não mudou nada, quem sou eu para ficar preso a promessas, se bem que a de não fazer mais campanha pro Maduro acho que dá pra cumprir.
Pois bem, como hoje acordei meio indisposto e o único plano de saúde que me restou é o da Unimédium, que só cobre consultas espirituais, resolvi ir ao PAM da rodoviária e quem eu encontro na fila, esperando para ser atendido¿ Santo Amaro. O próprio, nosso querido padroeiro que, de tempos em tempos, no seu dia costuma aparecer por aqui para conferir como andam as coisas na cidade. Curioso, logo eu quis saber o que ele fazia na fila, que naquele momento estava na altura do conjunto da Dow Quimica. “Cheguei à cidade no fim de semana à noite e como estava tendo um show no Guaibê, desviaram o trânsito para a Cachoeira. No caminho tentaram roubar o meu cajado e para fugir dos assaltantes tive que correr”. “Foi ai que o senhor torceu o pé¿” interrompi. “Não”, continuou ele, “Machuquei o tornozelo quando caí num buraco enorme no meio da rua, mas o problema maior não é esse, o buraco estava cheio de água parada e eu fui atacado pelos mosquitos da dengue!”. “Que merda, meu santo!”. “Merda mesmo foi depois quando eu peguei a porra dessa virose que a imprensa leviana inventou. Uma diarréia dos infernos!” completou ele numa linguagem não muito usual aos beatos, mas perfeitamente adequada à situação.
“Vamos falar de coisas boas, meu filho, eu quero saber é das grandes tranformações. Na última vez que estive por aqui o Farid tinha acabado de assumir e só se falava numa tal de gestão matricial. Agora não tem mais isso, tem¿”. “Na verdade não, mas a prefeita contratou um boliviano para fazer a reforma administrativa, já tem gente achando que vai sentir saudade daquela época”. “Não seja tão pessimista...” falou o santo “... pelo menos de carreiras ele deve entender” .Muita ironia para um beneditino, pensei comigo. “E aquelas empresas que prestavam serviços na cidade, transporte, segurança, lixo, empreiteiras, ela deve ter mudado todas, não¿” tentei fugir do assunto, mas ele insistiu “Pelo menos desta vez não lotearam a praia para uma única cervejaria, estou certo¿” Por conta do meu sorriso amarelo o santo não se conteve “Só falta você me dizer agora que o secretário de obras é o Duíno?”. “Pelo menos até ontem, era!” respondi. O santo não agüentou. Começou a suar muito, ficar roxo e ter espasmos. Os olhos giravam nas órbitas. “Assim não dá, vou pedir para ser exonerado do cargo de padroeiro dessa cidade!” Não resisti e arrematei “ Nem precisa, qualquer hora e sem aviso prévio a tua portaria sai no Diário Oficial”. Como nos velhos tempos.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
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